domingo, 15 de julho de 2012

Jamaica.

Minhas caminhadas diárias pelo Brooklin são uma fonte inesgotável de pensamentos dispersos e aloucados, mas que trazem distração a este peregrino dos supermercados (parece que estou sempre entrando ou saindo de um).

Outro dia, descendo a Rua Pensilvânia, deparo-me com um mendigão classudo, destes que hoje chamamos no Brasil de homeless, umas duas ou três doses acima do nível, que puxava numa cordinha um cachorrinho que não deveria ter mais do que quinze dias. Parecia um filhote de Labrador preto, ou era um vira-lata de boa origem, com predominância das características desta popular raça. O homem puxava o pobrezinho e comandava “Vem Jamaica, vem” e dava ordens ao coitado que, é claro, não estava entendendo nada “Senta, deita, rola, corre”. Até parece.

A escolha do nome foi fácil de deduzir, já que o humano era levemente parecido com o Bob Marley, talvez as doses que imaginei exageradas fossem outra coisa. E era Jamaica pra lá, Jamaica pra cá, uma festa. Lembro-me de haver pensado do alto dos meus preconceitos: “Este não vai durar uma semana”.

Semanas depois encontro novamente a dupla. Jamaica já maiorzinho, seguia seu Bob Marley saltitante, parando de vez em quando para cheirar um poste, ir atrás de outro cachorro, ou estas coisas que os filhotinhos fazem. Bob logo chamava a atenção de seu mascote, com um “Vem Jamaica”, que era atendido com mais ou menos presteza dependendo do tamanho da distração.
Tive que reformular minha previsão, já que o cachorrinho já não parecia tão assustado quanto da primeira vez e dava mostras de estar alegre e feliz. Havia, até, crescido um pouco.

Há poucos dias, novo encontro. Desta vez nosso Marley puxava um carrinho para recolher material para reciclagem e dava a mesma impressão de desnivelamento etílico que na primeira vez que o vi.
Não vi Jamaica logo de cara e pensei: “Pronto, o pobrezinho do cachorro já foi pro saco. Bem que eu tinha previsto”. Foi eu pensar esta bobagem e o nobre animal levanta-se do seu repouso dentro do carrinho, no qual estava sendo confortavelmente transportado. Olhou para Bob e deu um alegre latido, correspondido por um imediato “Fala Jamaica!”.
Acho que esta parceria vai longe.

Longa vida ao Bob Marley do Brooklin e seu fiel Jamaica.