segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Um épico hípico, ou vice-versa.

O convite.

Estive somente duas vezes no Jockey Clube de São Paulo. A primeira há uns dez anos ou mais, num jantar com minha mulher e dois casais amigos, e a segunda no último sábado (03/12/2016), com meu filho Eduardo, que havia conhecido o local recentemente e queria me levar para uma tarde divertida e esportiva (para os cavalos).



As lembranças.

Logo após o convite de meu filho comecei a me lembrar de minha infância, na qual havia os que “jogavam nos cavalos”, como se dizia naquela longínqua época dos que gostavam de fazer uma fezinha nas patas dos garbosos quadrúpedes. As pessoas comentavam, sussurrando, “aquele até que é bom rapaz, mas tem o vício dos cavalos”, “Tio Fulano joga nos cavalos, pobre tia Fulana”, toda família tinha um tio com este assustador vício. Da mesma forma que toda família tem um tio que bebe, havia aquele tio que jogava nos cavalos. Engraçado que não me lembro do mesmo preconceito contra os que gostavam de jogar no bicho ou comprar bilhetes de loteria, hábitos comuns na minha família. 
Na esquina da rua em que eu morava havia uma venda, que pra quem não sabe era um estabelecimento que vendia de tudo. Tamancos, vassouras, feijão a granel, bacalhau, batatas, pinga no balcão, doces acomodados em vitrines fechadas, de vidro (acho que era para que as moscas não fugissem). Do outro lado, na esquina oposta, havia um bar que era território proibido. Lá se reuniam, vejam o perigo, pessoas que gostavam de apostar em corridas de cavalos. Liam jornais e revistas especializados, lembro-me de um chamado “O Coruja”, faziam anotações, conversavam a respeito do estado atlético dos animais e dos jóqueis, uma conversa para iniciados. Cresci assim, cheio de preconceitos a respeito desta maldição que se abatia sobre alguns pobres diabos que, tirando esta marca de Caim, até eram boas pessoas.

A chegada.

E lá fomos nós, para aquele antro de perdição. Na entrada, logo após o estacionamento, um restaurante bacana, com muito movimento, principalmente de belas moças, profissionalmente vestidas, em grupos de três ou quatro, que deveriam estar indo ao encontro de amigos. Os carros estacionados próximos ao tal restaurante eram modelos novos de marcas de luxo. Muitos Audis, BMWs, Mercedes, os melhores exemplares. Pude ver ao vivo, pela primeira vez na minha vida, uma Lamborghini novinha, até me assustei.



Mas ao nos aproximarmos das áreas destinadas aos apostadores e torcedores, dava para perceber a decadência. Instalações que devem ter sido belíssimas há quarenta ou cinquenta anos, precisando de reparos. Pedaços de piso quebrados, móveis e instalações antigos. Até uma inexplicável cabine telefônica, muito antiga, onde se lia “Tele Turfe” e na qual havia um antigo e solitário aparelho telefônico. Imagino que o Jockey Clube deve ter tido seu auge entre as décadas de 1930 e 1960, decaindo a partir daí e perdendo espaço para outros tipos de jogos e diversões. Não imaginem algo brega, não é nada disso, mas a antiga elegância está puída, gasta pelo tempo.

A plateia.

Pouco público, não sei se é assim sempre ou se fomos num dia de menor movimento. No salão central ficam os guichês de apostas, uma lanchonete e vários televisores que transmitem as corridas de outros hipódromos, principalmente do Rio de Janeiro, e mostram os resultados e rateios dos prêmios dos páreos encerrados. E, pasmem, aqueles senhores que ficavam no tal bar proibido estavam todos lá, com as mesmas revistas e canetas, fazendo anotações e discutindo as probabilidades com os amigos. Mas pera lá, não podem ser os mesmos, já se passaram sessenta anos, devem ser os filhos daqueles desvairados apostadores. Inacreditavelmente, nenhum deles vai às arquibancadas para ver as corridas, não saem do tal saguão vendo tudo pela TV, gritam no final dos páreos, xingam os perdedores, riem dos amigos que quase acertaram o ganhador. São todos parecidos comigo, por volta dos setentinha (alguns mais), não há quase jovens. Nós fazíamos nossas apostas e íamos assistir as corridas das arquibancadas, muito mais divertido e saudável.




Os jogos.

Nem meu filho, nem eu entendemos picas deste assunto, então apostar foi um exercício de criatividade. Chegamos no início do terceiro páreo, pudemos ver os animais no aquecimento, ai nossa avaliação prevaleceu. O cavalo mais bonito, o que parecia mais nervoso, estas bobagens. Apostamos e perdemos. Normal. Ai começou uma puta chuva, tivemos que ficar mais abrigados e passamos a fazer nossas escolhas pelo místico critério do nome dos animais. “In The Money”, “Geniale” ou “Ellen Caliente”? Fomos de “In The Money” e o bicho ganhou. Mas era favorito e a grana foi pouca, não compensou o prejuízo inicial. Ai ficou difícil, “Num Carece”, “Olympic Google”, “Justiça Divina Now”, “Senatus”. “Num Carece” foi desclassificado de cara, escolhemos outros e ...perdemos. Percebemos que podíamos apostar na ponta ou no placê, que paga caso o cavalo chegue em primeiro ou segundo, ai as chances aumentam. Mas o prêmio diminui. Sétimo páreo ganhamos uns caraminguás no placê, nada relevante. Oitavo páreo, estamos analisando os cavalos no desfile de apresentação. Os nomes eram muito sugestivos “Falcatrua”, “Opus Uno”, “Veuve Clicquot”, “Ferrari Negra”, “Etoile Home”, todos uma beleza. Fora um horroroso “Kaxaça”, eram todos nomes fortes. Mas ai é que se deu o dilema. Havia dois cavalos tordilhos naquele páreo. Pra quem não lembra, Tordilho era o nome do cavalo que eu, quando garoto, costumava cavalgar na Fazenda Pedra Branca, cuja saga já foi apresentada aqui. Falo para meu filho: Quero jogar num tordilho! Ele: Qual deles? Um era bonitão, garboso, imponente, uma beleza. O outro parecia cavalo de carroça, pescoço caído, olhar tristonho. Arrastava-se na apresentação, cheguei a comentar com meu filho: Este bosta vai ganhar. E o bonitão ainda era o tal “Falcatrua”. Era o destino! Vou nesse. Eduardo escolheu outro cavalo e pimba! Perdemos. Ganhou “Veuve Clicquot”, a égua tordilho com cara de triste.



Último páreo.
Eu tinha avisado o Eduardo na chegada: “Trouxe cem mangos. A hora que acabar, acabou.” Restavam cinquenta e poucos, o resto já tínhamos perdido. Então abandonamos a ciência dos nomes e partimos para a violência. Vamos apostar a olho (como se já não estivéssemos fazendo isso). Ponta e placê em cinco cavalos, só vão restar três. Alguma coisa a gente ganha. Só pra sair com a sensação de vitória. Vamos lá! Eduardo dirigiu-se ao guichê de apostas enquanto eu ficava na arquibancada ouvindo um cara engraçado que fazia piadas num grupo próximo. Meu filho volta e avisa: troquei um dos cavalos, estava pagando muito pouco, não iria adiantar nada. Mudei para um azarão que, se entrar, vamos nos dar bem. Beleza, vamos lá!
Páreo nervoso, cavalos embolados, eu com dificuldade de ver os atletas, só enxergando quando estavam muito perto. “Vai, viado”, “Vai, filho-da-puta”, torcemos na maior elegância. Quem ganhou? Ganhamos? Ganhamos! O cavalo que Eduardo havia escolhido na boca do caixa, o azarão (no caso a azaroa), que havia largado mal, disparou no final e venceu a corrida. Bendita “Morena Rosa”.
Ganhamos cento e vinte cruz-credos. O lucro quase deu para pagar o estacionamento.



Epílogo.

Já estamos planejando novas aventuras equestres. Meu filho estudará sites especializados. Eu assistirei ao clássico dos Irmãos Marx, “Um Dia nas Corridas”.


Nos aguardem!


Um comentário:

  1. Super-bacana!Boas apostas.
    Estive uma só vez, um tio me levou. Ele punha papeizinhos dobrados com os nomes dos cavalos em um copo d'água, e apostava nos que abriam.
    Para entrar, um problema. O porteiro perguntou a muinha idade e o tio Nápole Maggio respondeu:
    - 10 anos!
    eu corrigi:
    - 8 tio, tenho oito!
    Essa honestidade me persegue até agora.

    Resumindo, indiquei um cavalo num folheto para um senhor que pediu. O cavalo ganhou, e ele me deu uma nota de CR$50, roxa, acho que da Princesa Isabel.
    Se lembro bem da cara, o Nápole ficou puto!

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